O filho de chocadeira

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


- Puta que pariu essas crianças!

Todo sábado, dia de limpeza, Alexandre varria o quintal com o máximo de esmero possível. Não era apenas uma tarefa rotineira e necessária, mas terapêutica para ele. Enquanto varria as folhas e a terra que se acumulavam ao longo da semana, Alexandre pensava nas dificuldades da vida, refletia sobre os problemas surgidos ao longo dos dias anteriores, antevendo as possíveis soluções a serem perseguidas na semana seguinte.

Mas sábado não é dia tranquilo. No sábado os pais largam os filhos na rua. Crianças correm para lá e para cá, soltando pipa, andando de bicicleta, gritando, perseguindo cachorros, enfim. Sábado é dia de pandemônio juvenil. E, naquele sábado, os pensamentos de Alexandre foram interrompidos por risadas infantis no portão de sua casa.

- Ô mulherzinha! Ô menininha! – Gritava um menino, de no máximo 12 anos, bochechas gordas e sujas de terra. – Você lava roupa também? Faz a janta? Minha mãe está sem diarista, você não quer ir trabalhar lá em casa?

- Ô moleque, não tem nada melhor pra fazer não? – Respondeu Alexandre, escorado no cabo da vassoura, se sentindo ridículo por  bater boca com uma criança. – Vai lá limpar esse catarro escorrendo na sua cara!

- Vira homem! Fica aí fazendo coisa de mulher!

Os amigos do menino riam, esbanjando deboche.

- Me deixa em paz, piá! Volta pra casa, pra sua mãe trocar essa sua fralda, seu filho de chocadeira!

O sorriso desapareceu no rosto no menino. Seus amigos riam ainda mais alto, e cobravam dele uma resposta à ofensa contra sua mãe. Ele, enfezado, limitou-se a gritar uma série de palavrões, agitando contra Alexandre os dedos médios em riste. Depois saiu andando a passos largos pela rua acompanhado pelos amigos, que gargalhavam espalhafatosamente.

A irritação de Alexandre era tanta que ele sequer terminou de varrer o quintal. Simplesmente recolheu com uma pá as poucas folhas que havia juntado e entrou em casa, batendo a porta. Horas depois, com a casa já limpa, ele assistia um filme, comendo amendoim e bebendo cerveja. E quando a trama chegava ao seu clímax, alguém bateu palmas no portão.

Lá estava o menino, com a mesma expressão de raiva com a qual partira horas antes. E ao seu lado estava uma mulher de baixa estatura, corpo rotundo, trajando um vestido extremamente colorido, e em seu rosto Alexandre viu os mesmos traços do menino, a mesma bochecha gorda, e a mesma carranca.

- Meu filho disse que você me chamou de chocadeira! – Acusou a mulher com voz estridente.

- Jamais faria isso, senhora! – Respondeu Alexandre, sem se preocupar em esconder o cinismo.

- Saiba o senhor que sou mulher de respeito, e meu filho merece o mesmo respeito que eu!

- Senhora, eu não falei isso pro seu filho.

- Falou sim mãe, ele falou sim! – Disse o menino.

- Meu filho não mente!

- Senhora, seu piá, além de filho de chocadeira, é um baita mentiroso!

Palavras guardadas

sexta-feira, 21 de agosto de 2015




Palavras ficam guardadas
hibernam em poemas incompletos
ressonam e engordam na mediocridade
esperando uma inspiração sazonal
ignorando as provocações da alma
engolindo raiva, babando discórdia
engasgando no próprio grito
sufocando num canto escuro e sujo.

Caminhada pelos Vales dos Desejos

domingo, 3 de agosto de 2014



Sozinho ele caminhou pelos Vales do Desejo. Rochas se mesclavam com trechos de terra úmida, onde grama suave se exibia sob um céu de excessivo azul. O rio corria alegre, com sua voz suave a se destacar no silêncio do lugar. Ele seguia devagar, observando a beleza do mundo, tomando cuidado para não se encantar. Com a bagagem às costas ele andava resoluto, disposto a vencer todos os quilômetros daquele vale.

Palavras

domingo, 27 de abril de 2014


Minhas palavras voam livres no ar gelado, raspando de leve na grama, espantando os passarinhos nos arbustos. E quanto mais forte o vento, mais intensas elas são, se espalhando pela atmosfera e cobrindo a terra. Assim eu as vejo, sobre os campos verdes, contra os céus escuros e carrancudos. Insatisfeito, questionei os deuses, exigindo voltar para o meu universo onírico. Depois, questionei a mim mesmo por julgar os deuses. Atos de êxtase que atraem o universo interior, um rio de sesres diferentes que levam ao vale escondido. Naveguei por tais águas, e sobrevivi às suas corredeiras. Acordei exausto, sentindo o frio desumano que dominava meu corpo através de minhas roupas molhadas. O barco flutuava em um lago expremido entre montanhas e colinas. Remei até a beira, e com dificulde eu escalei a encosta escorregadia. Debaixo de um carvalho eu acendi uma fogueira, e ali observei o sol se pôr, aparecendo tímido entre as muitas nuvens que encobriam o céu. Nos raios finais do dia eu vi minhas palavras voando para mim, me saudando. Tão alegres quanto eu, elas dançaram ao meu redor, e os deuses me puniram ao me encher de remorso por tê-los julgado.